Um levantamento conduzido com 40 fundos de venture capital e anjos organizados aponta que o número de rodadas seed fechadas em São Paulo cresceu 18% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. O volume total captado, porém, subiu apenas 6% — sinal de que investidores estão espalhando apostas em cheques menores.

Para fundadores que vivem o dia a dia de pitch decks e reuniões com sócios, a leitura é mista. Mais portas abertas, mas menos capital por rodada e processos de due diligence que se estenderam em média de cinco para oito semanas, segundo relatos colhidos pela redação.

O que mudou na mesa dos investidores

Entre janeiro e março, o ticket médio das rodadas seed em SP caiu de R$ 2,4 milhões para R$ 1,9 milhões. Fundos citaram três motivos recorrentes: cautela macroeconômica, preferência por empresas com receita recorrente já demonstrada e a busca por diversificar portfólio em vez de concentrar em poucas apostas grandes.

“Seed deixou de ser sinônimo de aposta em ideia. Hoje queremos ver uso real do produto, mesmo que em escala pequena”, disse um sócio de fundo local, em conversa reservada.

Setores que lideraram o ranking de fechamentos incluem software B2B para varejo, logística urbana e ferramentas de automação para PMEs. Healthtech e edtech apareceram em segundo plano na comparação trimestral, embora ainda registrem interesse pontual de fundos especializados.

Geografia e hubs

A concentração em São Paulo permanece forte, mas cidades como Campinas, Ribeirão Preto e Joinville aparecem com mais frequência nos relatórios de origem das empresas captantes. Aceleradoras com braço corporativo ajudaram a puxar dealflow de fora do eixo Faria Lima.

Para times que ainda não têm network na capital, o cenário exige estratégia. Vários fundadores entrevistados mencionaram participação constante em eventos setoriais (não apenas demo days genéricos) e construção de relacionamento com angels antes de pedir cheque.

O que observar no segundo semestre

Analistas ouvidos pelo StartupBR não esperam retorno ao pico de 2021, mas veem espaço para estabilização se a taxa de juros doméstica continuar em trajetória favorável. O indicador a acompanhar não é só volume anunciado em press releases — é desembolso efetivo, que costuma defasar o anúncio em semanas ou meses.

Se você está captando agora, vale alinhar expectativas com o mercado: rodadas seed menores, mais etapas intermediárias e narrativas centradas em métricas operacionais, não apenas em tamanho de mercado.

Outro ponto observado: fundos estrangeiros com escritório no Brasil participam de menos rodadas, mas com tickets proporcionalmente maiores quando entram. Isso cria um mercado bifurcado — disputa acirrada no seed local e janelas pontuais para empresas com tração exportável.

Por fim, vale lembrar que anúncio de rodada não é sinônimo de caixa no banco. Acompanhamos casos em que o binding só ocorre após marcos de produto. Fundadores devem planejar runway considerando essa defasagem.

Marina Costa cobre funding e M&A em startups desde 2019. Antes, trabalhou em desk de tecnologia em veículo econômico nacional.